Por Eduardo Andreassi

Montalcino, na Toscana (Foto: Eduardo Andreassi)

Quando pensamos em Itália, uma das primeiras coisas que vem à mente são suas paisagens deslumbrantes, arquitetura que atraem estudiosos e curiosos até os dias de hoje e sua gastronomia inigualável. Se citarmos Toscana, então, não há quem não se deixe levar pela vista extasiante, sua rica história e tradições, um povo hospitaleiro e do mesmo modo uma gastronomia que dá água na boca

Pois é exatamente na Toscana que encontramos a “nata” das melhores e mais famosas  vinícolas no mundo inteiro – que foram passadas de geração em geração e permanece nas famílias e com o mesmo processo de elaboração até os dias de hoje. Deliciosos queijos e salames que harmonizam muito bem com a bebida de Baco, massas que somente os italianos sabem fazer e seus maravilhosos “dolce” (doces), que vão bem com vinhos, café ou outra bebida qualquer.

As cidades e comunidades medievais de Siena, Gaiole in Chianti, San Gimignano, Montalcino, Lucca, San Quirico d’Orcia e Pienza  – tombadas pela UNESCO e algumas delas pertencentes ao Vale D’Orcia  – produzem os mais de 200 tipos de rótulos diferentes de vinhos feito por pequenos produtores, fazendo com que isso ajude a manter a qualidade de seus vinhos. Seus queijos, o azeite, o salame de Cinta Senese e outros, contribuem para essa grande qualidade gastronômica que a região possui. Doces tradicionais, massas e até sorvetes sacramentam definitivamente a fama da Toscana. E estamos falando de tradições seculares!

Pienza, na Toscana (Foto: Eduardo Andreassi)

Acordar logo cedo e se deparar com um cenário desses é de tirar o fôlego de qualquer um, convidando-nos a caminhar por suas vielas cheias de histórias de séculos passados. A cada parada uma nova experiência e um novo aprendizado, afinal há muito a ser visto e vivido nessa linda região da Toscana. Em seus “negozi” da região (lojas) – o café italiano é servido em uma dose muito pequena, porém tão saboroso quanto os doces de nomes desconhecidos – são doces da região e muito deles seculares -, seus queijos e salames maravilhosos, que harmonizam muito bem com os famosos vinhos da região – Orcia, Brunello de Montalcino.

Ah, seus vinhos. Por onde andamos vimos vinhedos e olivais espalhados por toda parte. Mundialmente conhecidos devidos à qualidade, seja nas cantinas, nas vinícolas ou mesmo nas lojas, você irá experimentar um dos melhores e mais tradicionais vinhos do mundo. Não estranhe se por momentos sentir-se na era Medieval, um Pelegrino dos anos 500D.C, caso visite a San Quirico Val D’Orcia – uma pitoresca aldeia situada em uma colina no Val d’Orcia  a 45 km de Siena e perto de Pienza, Montalcino e Montepulciano.

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Vinhos

Não poderíamos cometer a heresia e deixar de falar sobre os vinhos mais tradicionais, que por si só dispensam apresentações e que estão entre os melhores do mundo. Destacamos dois produtores distintos que vêm ganhando mercado com seus respectivos vinhos – a vinícola SassodiSole, localizada ao norte da città di Moltaltino e a vinícola Capitoni Marco Azienda Agraria, localizada em Pienza, ambas na províncias de Siena e na região do Val d’Orcia. Seus maiores clientes são o mercado italiano, os Estados Unidos, vários países da Europa e Japão.

Vinhedo na região da Toscana (Foto: Shutterstock)

Vinícola SassodiSole

Uma empresa familiar, produz vinhos desde 1900 (aproximadamente), sendo que hoje está na 4ª geração e é administrada por Roberto Terzuoli, agrônomo. A família Terzuoli vem de uma tradição agrícola antiga; registros remontam pelo menos ao início do século XVII. Uma seleção manual cuidadosa das uvas Sangeovese e um processo de envelhecimento em barris de cascos de carvalho, são um dos cuidados que a família Terzuoli toma para buscar uma melhor qualidade em relação ao Montalcino típico. Produz três tipos de vinhos: Orcia Rosso, Rosso di Montalcino e Brunello de Montalcino – com uma produção em torno de 40mil garrafas/ano. Ao longo dos anos tem conquistado vários prêmios de supra importância, dando mais notabilidade ao produto.

Vinícola Capitoni Marco Azienda Agraria

Localizada em local privilegiado – Val d’Orcia é conhecida em todo o mundo, sendo declarado “Patrimônio da Humanidade” pela UNESCO – está a menos de 200km de Roma, 70km de Siena e 120km de Florença. Produz três tipos de vinhos Rosso – tipicamente Toscanos – derivados das uvas Sangiovese. O Trocolone, Capitoni e Frasi, totalizando uma produção de cerca de 20mil garrafas/ano. Essa vinícola tem aumentado significativamente sua produção e qualidade na última década, quando aumentou a área de plantio, pois escolheu um terreno mais propício, que tem terra mista repleta de muitos fósseis que datam de milhões de anos atrás, quando ainda era o mar – e investiu em mais estudos e tecnologia. O resultado veio com o tempo, proporcionando aumentos significativos da quantidade e principalmente da qualidade do vinho.

Siena, na Toscana (Foto: Eduardo Andreassi)

Ainda nesta região de Val d’Orcia, destacam-se outras vinícolas, como: Andrea Costanti, Badia a Coltibuono, Fontaleoni, Biondi Santi e Cantina di Montalcino. Com mais de 300 produtores regionais, por lá não há emprego de agrotóxicos em suas produções, muito pelo contrário: há um cuidado extremo para garantir a qualidade de cada safra produzida. Entenda-se que produzir, neste caso, significa plantar, colher, fazer o vinho, envelhecer em barril de carvalho, rotular, engarrafar e distribuir.

Envelhecimento em barril de carvalho

Antes de o vinho ser comercializado, ele passa por um rigoroso processo de armazenamento e envelhecimento, que varia conforme o vinho e seu produtor.

Brunello: 12 meses em aço inoxidável, 36 meses em barricas de carvalho de grandes dimensões e 12 meses em vidro.

Orcia Rosso: 12 meses em aço inoxidável, 12 meses em barricas de carvalho grandes de Eslavônia, 8 meses em vidro.

Orcia Capitoni: em barricas durante 24 meses, em seguida, em garrafa por mais 12 meses em ambiente condicionado.

Orcia Frasi: uma pausa de duas semanas em aço inoxidável e posteriormente 24 meses em barris de carvalho.

Visitações e harmonizações

Uma das coisas que poucos sabem é que é possível visitar cada uma dessas vinícolas e degustar seus vinhos. Basta agendar um dia e saborear o que a Toscana irá te oferecer. Seja qual for a bebida de Baco, o resultado é um vinho intenso, encorpado, de aroma forte e elegante, que harmonizam bem com queijos, massas, assados ​​de carnes vermelhas e cozidos. Há sempre uma boa oportunidade para abrir uma garrafa de vinho, ainda que você não tenha nada programado, afinal,  você pode beber sozinho e se dar esse prazer.

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Gastronomia

Também não poderíamos deixar de destacar a Gelateria Dondoli, considerado por vários anos consecutivos como o melhor sorvete do mundo – 2006/2007/2008 e 2009. Seu proprietário, Sergio Dondoli é o mestre-sorveteiro da “Gelateria di Piazza“, localizada na Piazza della Cisterna em San Gimignano, conhecida em todo o mundo e visitada por um grande número de famosos e celebridades. Tem sempre uma fila enorme na porta! Fechando com chave de ouro, temos o famoso e tradicionalíssimo “Pici” – de origem medieval e Toscana, pode receber outros nomes em regiões diferentes da Itália, como Umbricelli, Stringozzi, bigoli, mas o modo de preparar é o mesmo. Ela é feita com farinha de trigo, água, sal e não leva ovos como a maioria das massas italianas. Trabalhada à mão, é enrolada feito uma massinha com resultado final bem rústico e espessuras diferentes. Delicioso!

Pici (Foto: Eduardo Andreassi)

E ao contrário do que muitos pensam e muitos outros desconhecem, explorar a Toscana é algo possível de ser feito em qualquer época do ano. Afinal, a riqueza e a variedade do ambiente proporcionam oportunidades únicas. É aconselhável a locação de um carro para locomover-se entre as cidades, porém se quiser mesmo vivenciar tudo isso, ande muito de ônibus e a pé. Somente assim poderá ter um contato mais direto com o povo italiano e entender o porquê a Itália sempre nos encanta.

Dicas:

Experimente vivenciar tudo isso com o Agroturismo, algo muito comum nesta região. Muitas dessas vinícolas oferecem esse serviço. Além disso, não deixe de alugar um carro, mesmo que você se desloque de ônibus ou trem das grandes cidades até essas região. Somente com um veículo você poderá tirar o máximo proveito de todo o seu passeio.

Agora, é só planejar, realizar e vivenciar um pouco da Toscana!


Eduardo Andreassi é jornalista e fotógrafo e de tempos em tempos se reveza trabalhando na Itália e no Brasil. Aborda diversos assuntos, entre eles o turismo, gastronomia e automobilismo. É apaixonado pelo seu trabalho e faz dele seu principal prazer, levando informações e toda sua vivência aos leitores através de suas reportagens em veículos e também pelas suas redes sociais: Instagram e Facebook.

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