*Por Artur Tavares 

Os vinhos naturais estão conquistando o mundo por sua leveza no paladar e por seu caráter sustentável. No Brasil, boas experiências começam a surgir

Foto: Roberta Sorge

Em um momento em que todo o planeta volta seus olhos para a sustentabilidade, à preservação do meio ambiente e para a agricultura familiar, o universo do vinho também tem aderido a essas tendências e mudando radicalmente de face.

Se de um lado as vinícolas estabelecidas, cheias de pedigree, se mantêm produzindo vinhos repletos de correções químicas, agrotóxicos que maculam o solo e com uvas nada orgânicas, de outro uma nova geração bate de frente a esses costumes antiquados apelando para a recuperação de frutas autóctones – aquelas nativas das próprias regiões –, para a biodinâmica, e para o uso de leveduras selvagens e fermentações espontâneas, resultando em produtos delicados, de sabores únicos, que desafiam a ordem estabelecida do mercado e do paladar.

Sommelière e sócia do restaurante Cepa, em São Paulo, Gabrielli Fleming tem feito um trabalho com vinhos naturais brasileiros desde quando trabalhava no também paulistano Hospedaria. Sua busca e paixão pela nova onda dos vinhos a fez voltar para sua terra natal, o Rio Grande do Sul, onde está concentrada hoje a maior produção deste tipo no Brasil. “Vinho brasileiro natural ainda é uma coisa muito pequena, mas tem muita gente lá fazendo experiências, que têm que ser incentivadas”, ela diz. Por lá, a nova geração encontra desafios clássicos que atrasam a mudança de paradigma: “Primeiro que o Brasil é o país da monocultura, que vai de frente com a biodinâmica. Depois, que há um pensamento provinciano, de repetir aquilo que se faz há muitos anos, da ordem estabelecida. Por último, falta repertório.”

No Rio Grande do Sul, as experiências com vinhos naturais levaram o enólogo Luís Henrique Zanini ao sucesso internacional, mas também deram a ele o reconhecimento por recuperar uma uva italiana trazida por imigrantes ainda no século 19, a Peverella, que foi esquecida em detrimento do plantio de outras mais aceitas no mercado. Seu Era dos Ventos é um rótulo espetacular, o primeiro vinho laranja do país, que fica em barricas de ipê e carvalho francês. Para Fleming, a recuperação da Peverella é um marco: “O nosso maior problema são essas uvas internacionais que você tem que plantar porque ‘é o que vende’, e que não dá certo. Cabernet Sauvignon, por exemplo, não amadurece no Brasil, aí colocam um monte de madeiras para mascarar a uva. É preciso fazer um resgate das uvas daqui”, ela diz.

Zanini faz parte dessa nova geração que promove o choque de cultura no vinho, mas não é o único. De cabeça, Fleming consegue citar o bom trabalho feito também por vinícolas como a Vivente, a Vinhas do Tempo, a Vinha Unna, e o Atelier Tormenta: “São produtores que estão quebrando um pouco da pompa do universo do vinho, e que conquistam um perfil de consumidores mais jovem, interessados em sustentabilidade e no pequeno produtor.”

Se os rótulos produzidos por essas vinícolas são deliciosos, ainda há barreiras óbvias para a produção. Sem muita intervenção enológica, os produtores correm os mais diversos riscos. Se o clima do ano não for favorável, por exemplo, as uvas podem não alcançar a qualidade desejada, diminuindo – e muito – a produção. Em um cenário desses, as safras são extremamente limitadas, variando entre 300, 500 ou 1.000 garrafas: “É por isso que os produtores não fazem vinhos de guarda. Ele são independentes, não têm grana. Com uma produção tão pequena, precisa vender para ter condição de fazer a safra seguinte. Vai guardar uva como?”, questiona a sommelière. A urgência leva a outro problema, ela diz: “Tem vinho que é vendido sem estar pronto, um dó. Você sente que eles podem passar algum tempo em garrafa descansando para estabilizar.”

No entanto, ela diz que o mais importante é continuar incentivando o consumo: “Principalmente para que os produtores consigam continuar trabalhando, para que comprem uvas melhores e consigam ter mais segurança em suas plantações. Trabalhamos com eles porque acreditamos no que eles fazem, é questão de ideologia, saber que essa é a coisa certa a se fazer.”

Fora do Rio Grande do Sul, há também algumas poucas experiências em vinhos naturais. Em São Roque, uma cidade do interior de São Paulo que já foi considerada, há muitos anos, a “terra do vinho”, a Bellaquinta produz um rótulo para sobremesa de uva Niágara, outro exemplo de uva autóctone deixada de lado aqui no país. “Embora seja um vinho fortificado, ele tem baixa intervenção enológica, e de uma variedade que dá certo por aqui. É ótimo, e quando sirvo às cegas, os clientes confundem com um Moscatel de Setúbal”, ela diz.

Já em São Bento do Sapucaí, perto de Campos do Jordão, a Entre Vilas tem um dos trabalhos mais respeitados em agricultura sustentável do estado. Além de produzir frutas das mais diversas e fazer experiências as primeiras experiências com plantio de lúpulo no Brasil, a fazenda tem uma produção de vinhos impressionante – e limitadíssima, daquelas quase impossíveis de ser acessadas. “É um daqueles produtores difíceis de ter no restaurante, de vinhedos orgânicos, que tira muito poucas garrafas por ano. Mas, para quem conseguir provar, recomendo o Syrah. É maravilhoso.”

Como inspiração para o futuro, Gabrielli pensa que os produtores nacionais deveriam voltar seus olhos para a América do Norte, onde o universo do vinho têm cara e uvas completamente diferentes das estabelecidas pelo mercado europeu – como a Zinfandel, para ficar no exemplo mais conhecido: “São produtos diferentes, mas também de qualidade altíssima. São uvas mais adaptadas à nossa realidade, não adianta ter descaso.”

Com a ajuda da sommelière, deixamos aqui algumas recomendações de rótulos fabulosos de vinhos nacionais brasileiros que você deveria provar:

Era dos Ventos Peverella 2016

O primeiro vinho laranja brasileiro ganhou 94 pontos no guia Descorchados com sua safra 2014. Feito na Serra Gaúcha, tem visual de salmão e pêssego, com impressionantes notas gustativas de flores, frutas como caju e pitanga, e um toque mineral.

Faccin Riesling Itálico 2018

Faccin Riesling Itálico
Faccin Riesling Itálico

A Riesling Itálica – não confundir com aquela produzida na Alsácia – veio para o Brasil com imigrantes italianos ainda no século 19, e, assim como a Peverella, ficou esquecida por aqui. Esse rótulo da Faccin alcançou 91 pontos no guia Descorchados, com uma produção média de 300 garrafas por safra. Sem filtração, tem visual turvo, com aromas que vão do marmelo ao chá de camomila. No paladar, a acidez e a salinidades são bastante presentes, lembrando até limão.

Vinhas do Tempo In Vitro Pét-Nat Pinot Noir 2019

Vinhas do Tempo
Vinhas do Tempo (Foto: divulgação)

Um dos pioneiros na fermentação pet-nat para espumantes no Brasil – aquela que é finalizada na garrafa –, a Vinhas do Tempo produz um espumante 100% Pinot Noir espetacular. Neste ano, a produção ficou restrita a 500 garrafas. Sem filtragem, tem cor laranja, bolhas delicadas e um paladar levemente salgado.

Atelier Tormentas Pinot Noir

Um dos enólogos naturais mais conceituados do Rio Grande do Sul, Marco Danielle tem uma grande linha de naturais em seu Atelier Tormenta, com uvas Sangiovese, Cabernet Franc, Tannat e Petit Verdot. O destaque, porém, fica para seu delicado Pinot Noir, das linhas Fulvia e Monte Alegre. Cada um dos rótulos têm características distintas, concedidas pela diferença de alturas dos vinhedos. Vale a comparação.

Fique ligado: Vivente

Vivente (Foto: divulgação)

As safras 2018 dos rótulos Pinot Noir, Cabernet Franc Carbônico, Cabernet Franc e Sauvingnon Blanc, lançadas agora pela Vivente, já estão esgotadas, e por isso mesmo é bom recomendar que o consumidor fique de olho para o ano que vem. A vinícola fica em Colinas, no Rio Grande do Sul.


Artur Tavares

Com passagens pela Rolling Stone Brasil, MTV e o programa CQC, da TV Bandeirantes, Artur Tavares hoje é editor das revistas Carbono Uomo e Corriere Fasano. Não é bem um especialista em bebidas, mas é ótimo de copo.

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