Foto: André Aloi

Muito provavelmente você já ouviu falar na maior procissão católica do Brasil em honra à virgem de Nazaré (padroeira do Pará e Rainha da Amazônia), que acontece no segundo domingo de outubro. A cada ano, tem atraído cada vez mais turistas e romeiros.

Belém, Pará – O chamado Círio de Nazaré reúne centenas de milhares de pessoas por terra e rio – não há palavras para descrever o fenômeno da fé, em que as dores físicas são superadas em atos de braveza a fim de agradecer pequenos milagres, na visão dos fiéis, concedidos pela santa. Ganhando cada vez mais adeptos, este ano, por exemplo, a cantora paraense Fafá de Belém levou um séquito de atores globais – capitaneados por Glória Perez – para assistir a romaria em sua Varanda.

Peregrinos tomam as ruas em homenagem à santa dois dias antes do ponto mais alto da celebração. A emocionante viagem começa na sexta-feira, quando a imagem é levada a Ananindeua (distante 18 km de Belém, na região metropolitana). No dia seguinte, logo cedo acontece a romaria fluvial, quando os barcos levam a imagem à chamada escadinha do cais do porto, na Praça Pedro Teixeira. Depois, a motorromaria – com direito a buzinaço – conduz a santa até o Colégio Gentil Bittencourt. Perto dali, na Basílica, a imagem original de Nossa Senhora de Nazaré, encontrada por Plácido de Souza em 1700, desce para ser exaltada.

À noite, acontece a Trasladação: quando a imagem peregrina sai da Catedral de Belém e vai para a Basílica. Aqui começam os atos mais nobres dos fiéis. Muitos descalços, outros carregando velas ou a própria réplica da santa, fazem o percurso acompanhando a berlinda (andor puxado por uma corda de 400 metros de comprimento). O ato virou tradição em 1885, 30 anos após a orla da Baía do Guajará (próximo ao Ver-o-peso) ficar alagada e, na ocasião, foi usada uma corda para desatolar o carro que seguia com a santa. Funciona como um elo entre os promesseiros, chamados de cordeiros.

Mesmo debaixo de chuva, neste 2017, um ato chama a atenção de quem acompanha a romaria desavisado. Amigos, familiares e romeiros jogam água para cima a fim de espantar o calor e diminuir a penitência de quem faz da corda sua cruz. No percurso, fora da berlinda e das alas que a antecedem, as fachadas das casas ganham iluminação especial, os estabelecimentos comerciais colocam música ou bandas ao vivo com músicas cristãs. Em camarotes profissionais ou improvisados, jovens, famílias, senhorinhas – público de todas as idades – acompanham o cortejo. Nas esquinas, entidades de classe distribuem água, no meio da romaria, ambulantes seguem vendendo patuás, terços, fitinhas coloridas (a lá Senhor do Bonfim), além de comidas práticas – como pipocas e chips de batata.

Nas calçadas, a Cruz Vermelha abre caminho para o resgate daqueles que superaram os limites do corpo para seguir na procissão, mas falharam ao concluir a missão. Soldados e policiais militares, além de guardas de apoio fazem de seus corpos escudos para que ninguém fure a barreira para chegar à berlinda, onde fica a Santa. Enquanto peregrinos seguem em paz, quem vai na corda tenta conseguir segurar um pedacinho de uma das estações – ao final, essa corrente é cortada e cada um leva para si uma espécie de troféu ou souvenir.

É domingo pela manhã. Após a missa das 5h30, finalmente começa o momento mais esperado para os fiéis de Nossa Senhora de Nazaré: o Círio. Pelas ruas, milhares de pessoas seguem a procissão rumo ao Santuário de Nazaré – com mais 400m de corda. É comovente acompanhar o louvor dos cristãos, que param de tempos em tempos em sua rota para comungar com aqueles que acompanham sentados ou no alto dos edifícios. A festa tem vários elementos simbólicos, como explicado anteriormente: a berlinda (que leva a imagem), as cordas (sustentação da fé), o manto (que muda todo ano, de acordo com o tema da romaria), as velas (círio vem daí: cereus, do latim).

Quem sai da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, no centro de Belém, no domingo pela manhã – ou acompanha um pouquinho da história desses peregrinos no trecho entre uma igreja e outra vê que a fé move montanhas, como diz o ditado. A expressão no olhar de quem acredita que vai chegar até o fim da romaria ou os que desmantelam as rótulas porque fizeram o trajeto de joelhos causam arrepios tamanha fé que movimenta a cidade durante o período. “Naza, Nazarézinha, Nazaré Rainha, Nazaré, Mãe da Terra, Mãezinha” (como diz a música “Zouk da Naza”, do músico Almirzinho Gabriel) e apelidos derivados fazem da imagem uma amiga, que aproxima os belenenses quando se referem à Nossa Senhora de Nazaré. Terminado o trajeto, é hora de mais uma missa. Dessa vez, campal.

O clima de irmandade – até para os menos crédulos – ainda é de união. Muitos saem para almoçar na casa de amigos e parentes para consumir um prato típico: seja o pato com tucupi (os menos tradicionais comem frango ou peru) ou a maniçoba. Mas aqui mora uma força que transcende a história. Essa tremenda festança, de alegria e calor, é um rio de gente demonstrando fé em gritos de amor, como diz “Outubro Dez – O Círio”, de Leno Rocha, muito tocada durante a festa deste ano. Se for alguma vez, não esqueça de amarrar a fitinha de Naza em um dos pulsos, fazendo três pedidos ao dar os nós.

OUTRA VEZ
Quando você acha que acabou, em uma segunda-feira duas semanas após o Círio, outra procissão marca o Recírio. Os devotos assistem a uma missa campal na Praça Santuário da Basílica de Nazaré e, em seguida, levam a imagem peregrina para a capela do Colégio Gentil Bittencourt. Durante o percurso, a imagem é saudada por onde passa. Descubra informações detalhadas sobre a festa cristã na Círiopédia, do governo do Pará.

Fotos gentilmente cedidas por Alessandra Fratos, do blog Tô Pensando em Viajar.


*O repórter viajou a convite da Secretaria de Turismo do Governo do Pará com a finalidade de promover o Círio de Nazaré. Quem cuidou do receptivo foi a agência Boeing e nossa guia durante a estadia foi Amanda Coimbra (@guiadebelem).

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